“Não fui covarde”: Orgulhoso após sua pior fase, Walter já sonha internacional


Os quilos a mais evidenciam apenas uma característica do comportamento que difere Walter dos demais jogadores de futebol. A sinceridade é uma das outras. Em um mundo pautado pelas aparências, dizer a verdade, às vezes, é se incomodar. Comprar uma briga com treinador, dirigente, empresário, assessor de imprensa. Porém, o atacante fala o que pensa. E foi assim, puro, que admitiu: viveu no Fluminense o pior momento da sua carreira e, ao mesmo tempo, uma mudança que pautará todas as próximas temporadas que venha a disputar. Pela primeira vez em 25 anos, enfrentou a adversidade e não pediu para ir embora. Não foi covarde, como adjetivou.  

Foram dez jogos no banco de reservas até voltar a ganhar uma chance com Cristóvão Borges – acumula, agora, quatro partidas como titular. Fosse nos tempos de Porto ou de Cruzeiro, a situação ficaria insustentável. Ele repetiria o discurso e a atitude. Palavras resumiriam a infelicidade e a ação de ir embora seria a solução, como um passe de mágica, para voltar a sorrir.

– Eu não me sentia bem. E, quando isso acontece, sou o primeiro a chegar ao treinador e ao dirigente e pedir para ir embora. Quando eu coloco na minha cabeça, ninguém tira. Foi assim no Porto e no Cruzeiro. Aqui no Fluminense não fiz isso. Não fui covarde comigo mesmo. Isso é coisa de covarde. Só de continuar é uma vitória – resume o camisa 18.  

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Mas o que mudou? Walter mal sabe responder. Diz que o apoio da esposa Vanessa e do grupo de jogadores, a começar por Fred, o fez pensar em coisas que antes não pensava. Enfrentar a adversidade, talvez, poderia ser melhor do que fugir. Foi assim que admitiu ter “largado” o controle do peso, um dos motivos pelos quais Cristóvão o relegou à reserva, e voltou a se pesar três vezes ao dia. Foi assim que retomou a alimentação indicada pela nutricionista Renata Faro. E foi assim que percebeu, ao formar dupla com Fred, que era hora de pensar no time e não no individual.  

– Atacante vive de gol. É cobrado se não fizer. O mais importante, na minha consciência, é ir bem no jogo. É acabar o jogo e dizer: “nossa, segurei a bola, segurei o zagueiro, dei passe ao gol” – compara o jogador, que se diz sentir em casa.  

Walter vive nova fase no Fluminense: é titular há quatro jogos (Foto: Hector Werlang)

Em 36 jogos, desde o começo do ano, o primeiro nas Laranjeiras, Walter marcou apenas nove gols. Desempenho inferior ao registrado, no ano anterior, no Goiás. Balançar a rede, porém, não é o mais importante. Ser um atleta, encarar as adversidades da vida e fazer um bom trabalho poderão ajudar a realizar o sonho que lhe falta no futebol: um pé de meia capaz de garantir o futuro da filha Catarina Vitória.  

– Não vou mentir. Serei sincero. Não gosto de mentira. É fazer um bom contrato, ir para um time de fora e fazer o pé de meia. Ajudar a minha filha, a minha esposa, a minha família, que é grande lá no Nordeste. Dar uma vida melhor a eles. Trabalhar muito para fazer um bom contrato lá fora. Mais importante é dar uma vida melhor à minha filha. Para ela não sofrer como eu sofri no Recife – diz o novo Walter.

   

Confira a íntegra da entrevista:

   

GloboEsporte.com: É titular de novo. Voltou a ser o velho Walter?

Walter: Sim, sem dúvida. É bom voltar a jogar. Se acostuma de novo. O mais importante, para mim, é não deixar cair, não deixar subir para a cabeça. Passei um momento muito difícil. Isso nunca aconteceu comigo. A vida no futebol é assim. Um dia está em cima, outro lá embaixo. E outro, mais embaixo ainda. Foi isso o que aconteceu. Parecido com 2009. Machuquei joelho. Fui artilheiro com a Seleção no Sul-Americano (sub-20) e, de repente, veio uma lesão no joelho. Que mudou a minha vida. Consegue ver quem são os teus amigos de verdade. E quem bate nas tuas costas só quando está bem.  

O que aconteceu para ir para a reserva? Em recente entrevista, disse que tinha ficado largado. O que é isso?

Ficar largado significa que fiquei triste. Não entrava nos jogos e não conseguia ajudar. Via jogos que achava que poderia ter entrado. Eram 10 jogos sem entrar. O professor fez as opções dele. O jogador quer jogar sempre. E o treinador só pode fazer três trocas. Compreendi. Esperei meu momento. E ele chegou. Vou tentar de tudo para terminar o ano bem.  

Admite que houve descuido com a questão física?

Larguei um pouco fora do campo, sem dúvida. Não estava focado. Estava triste. Não rendia. Larguei. A ajuda da minha esposa, graças a Deus, e do clube… o Fred chegou e disse: “nós precisamos de você”. Foquei nisso. Trabalho firme. E passei a ajudar.  

Eles, então, te ajudaram a mudar?

Eles viram que eu estava chateado. Dava para ver. Posso falar. O Fred falou da minha importância. Isso me motivou. O grupo aqui é fechado, unido. Minha esposa me cobrou em casa. E tem a Renata (nutricionista)… agradeço a ela por tudo que fez para mim.  

Walter voltou a sorrir no Tricolor (Foto: Hector Werlang)

Pode dar um exemplo de cobrança?

Eu estava comendo à noite de novo, como pão. Tinha parado e voltei. Isso estava atrapalhando. Minha esposa me puxou e agora eu me controlei.  

A tristeza te fazia descontar na comida?

Sim, era a desculpa que eu tinha. O mais importante é que eu não larguei totalmente. Teve outros times que eu pedi para ir embora. E aqui no Fluminense não fiz isso. Foi uma vitória muito grande minha. Em outros times vive as mesmas coisas e fui embora. Foi assim no Porto, aconteceu no Cruzeiro.  

Rebeldia?

Não. É que eu não me sentia bem. E quando isso acontece, sou o primeiro a chegar ao treinador e ao dirigente e pedir para ir embora. E quando eu coloco na minha cabeça, ninguém tira. Foi assim no Porto e no Cruzeiro. Ao sair do Cruzeiro, fui ao Goiás e foi onde apareci mais. Uma opção muito boa. Aqui no Fluminense não fiz isso. Não fui covarde comigo mesmo. Isso é coisa de covarde. Só de continuar é uma vitória.  

O que te fez mudar de comportamento?

Não sei. É difícil. Nunca tinha ficado dez rodadas sem entrar. Foi o pior momento da minha carreira…  

Se fosse o velho Walter, então, pediria para ir embora?

Sem dúvida. Ia chegar e pedir para ir embora. Eu controlei isso. Estou feliz por mim. Não fui covarde comigo.  

Essas trocas anteriores te prejudicaram?

Me ajudaram. Do Porto, fui ao Cruzeiro. E depois ao Goiás. Lá eu apareci mais ao Brasil. Fiquei um ano e meio e fui muito feliz. É um time que me abraçou. Poucos acreditavam. E eles me abraçaram.  

Rafael Sobis tem brincadeira de oferecer comida a você?

É só de brincadeira. Sempre tem uns doces e, pra mim, é diferente. Ele chega e oferece. De brincadeira. É uma pessoa ótima. Em 2009, teve lesão igual a minha. Quem sofreu sabe como é difícil. É um vencedor.  

Se sente em casa hoje?

Sim. Foi difícil. Saí do Goiás e fui ao Fluminense. Lá, se ficar em sexto ou sétimo está ótimo. Aqui é cobrança o tempo todo. Tem de ser campeão da Copa do Brasil, da Sul-Americana e do Brasileirão. No mínimo, classificar à Libertadores. Há muito mais cobrança.  

Quem lhe ajudou muito, na chegada, foi o Renato Gaúcho. Como foi o período após a saída dele?

Senti muita falta. O Renato… Estou aqui graças a ele. Ele chegou para mim e disse. Graças aos dirigentes e à Unimed. Sempre quis trabalhar com Renato. Me ajudou muito no pessoal. Muitos jogadores comentam o trabalho dele. Queria ver como é. Diziam que era cara engraçado e brincalhão. E é um cara que senti muita falta. É uma grande pessoa. Sabe a hora certa de brincar. Agradeço muito a ele. Quem sabe a gente volte a trabalhar.  

Precisou se acostumar com o jeito de trabalhar do Cristóvão?

O Renato não me deu tratamento especial. Foi a mesma coisa. É diferente. Cristóvão é mais sério, na dele, mais concentração, mais reservado. Mas também brinca. E eu gosto disso. Brincava com Enderson, Tite, Renato, Abel. Sou assim. Cristóvão chegou com a corda no pescoço. Agora, é diferente. Sei como é o trabalho dele. E ele sabe como é o meu. É uma grande pessoa.  

Walter em entrevista na sede do clube nas Laranjeiras, no Rio de Janeiro (Foto: Bruno Haddad (Fluminense))

Como é a relação com a torcida?

Todas as torcidas têm carinho por mim. Em qualquer lugar que vou jogar. Agradeço muito à torcida do Fluminense. É difícil chegar e ter carinho assim logo no começo. Tento fazer o melhor em campo. A torcida é de guerreiros. Merece. Agradeço. Tenho muito a dar ainda a eles.   

Se sente exemplo com a luta contra o peso?

É difícil. Eu sofro com peso. Perder um quilo é muito importante. Fico feliz. Tem a menina do vôlei que sofre. Tem outros. Mas eu pareço mais. Tem jogador acima do peso e não aparece. Tem o que precisa ganhar peso também pois é muito magro. Todos têm o seu problema. O meu é esse, o peso. Vou levar para o resto da vida. A balança é a minha vizinha. Dorme do meu lado. Me peso duas vezes ao dia: ao acordar e depois ao ir dormir. É uma irmã.  

Não se pesa no clube também?

Isso. São três vezes ao dia. O Maurício (fisiologista) me enche o saco. Tento fugir, mas ele me chama. Isso é normal. Os clubes têm isso.  

E está no peso ideal?

Ainda não. Tem que baixar. Estou trabalhando. Mas estou melhor.  

Por qual motivo a dupla com Fred deu certo?

Estamos conversando muito dentro do campo. Estamos indo bem. Para mim, só falto o gol. Atacante vive de gol. É cobrado se não fizer. O mais importante, na minha consciência, é ir bem no jogo. É acabar o jogo e dizer: “nossa, segurei a bola, segurei o zagueiro, dei passe ao gol”. É importante. O Fred é inteligente. Todos querem jogar com ele. Na minha vida, só tive atacante de qualidade do meu lado. Nilmar, Falcao Garcia, Hulk… tudo nível de seleção. Hoje formo ataque com Fred, que foi para a Copa. Ainda tem Sobis, Biro Biro, Kenedy, Matheus, os meninos da base. Farei de tudo. Correr, marcar…fazer o eu melhor para essa dupla dar certo.  

Qual o teu sonho no futebol?

Não vou mentir. Serei sincero. Não gosto de mentira. É fazer um bom contrato, ir para um time de fora e fazer o pé de meia. Ajudar a minha filha, a minha esposa, a minha família, que é grande lá no Nordeste. Dar uma vida melhor a eles. Trabalhar muito para fazer um bom contrato lá fora. Mais importante é dar uma vida melhor à minha filha. Para ela não sofrer como eu sofri no Recife.

 

Quem é o Walter no Rio de Janeiro? O que faz na cidade?

Não saio muito. Fico em casa jogando videogame. Vou muito no cinema, com a minha esposa. De vez em quando, um show. Foi mais com a minha esposa. Tem de agradar e nega véia. Teve um que ela falou com dois meses de antecedência. Era da Anitta. Agora quer ir na Turma do Pagode. Estou enrolando… só vou como segurança. Com um copa de água na mão e deixando a patroa curtir.

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