BLOG: Flamengo e Fluminense: os irmãos Karamazov do futebol

Texto: Cláudio Nogueira*
 
O dia 7 de julho de 1912 faz parte da história do futebol carioca e nacional. Nessa data, diante de 800 pessoas, foi realizado, no Estádio do Fluminense, o primeiro Fla-Flu. A partida, a mais aguardada daquele ano, reunia os times do Flamengo e do Fluminense. O tricolor contava então com os reservas do grupo que havia se mudado para o rubro-negro. O Flamengo era o mais cotado. Afinal reunia os jogadores que haviam saído do Fluminense, campeão de 1911. Mas, contra todo o favoritismo, o Fluminense venceu por 3 a 2, originando a famosa rivalidade. Os gols foram de Calvert (dois) e Bartolomeu pelo tricolor, e de Arnaldo e Píndaro, para o rubro-negro. No returno, o Flamengo goleou: 4 a 0.

“Há um parentesco óbvio entre o Fluminense e o Flamengo. E como este se gerou no ressentimento, eu diria que os dois são os Irmãos Karamazov do futebol brasileiro”, escreveu Nelson Rodrigues, fazendo referência ao clássico romance da literatura “Os Irmãos Karamazov”, de Dostoievski (a respeito da rivalidade entre irmãos, assim como as narrarivas bíblicas de Abel e Caim e de Esaú e Jacó, no livro do Gênesis).

A expressão Fla-Flu só surgiria em 1925. Foi criada por Mário Filho (irmão de Nelson Rodrigues), para se referir na época a uma seleção carioca formada apenas por jogadores dos dois times e que iria enfrentar a seleção paulista.

No final do ano de 1911, o Fluminense liderava o campeonato, rumo à reconquista do título de campeão da cidade, perdido em 1910 para o Botafogo. Mas nem tudo ia bem nas Laranjeiras. O centroavante e capitão do time, Alberto Borgerth, teve sério desentendimento com o ground commitee (uma espécie de comissão técnica). Como resultado da crise, no dia seguinte à conquista do tricolor em 1911, ele e um grupo trocaram o Fluminense pelo Flamengo.

“Agora, não somos mais Fluminense. Somos Flamengo”, escreveu Borgerth na carta de despedida.

Sem o saber, Borgerth e seus companheiros — Othon de Figueiredo Baena, Píndaro de Carvalho Rodrigues, Emmanuel Augusto Nery, Ernesto Amarante, Armando de Almeida, Orlando Sampaio Matos, Gustavo Adolpho de Carvalho, Lawrence Andrews e Arnaldo Machado Guimarães —  lançavam as bases do futebol do clube que se tornaria o mais querido do país.

A ida de Borgerth para o Flamengo não chega a ser um absurdo. Ao contrário do que ocorre hoje, Flamengo e Fluminense não eram rivais, já que o Flamengo, fundado em 1895, era do remo, e o Fluminense, criado em 1902, se dedicava ao futebol. Eles simplesmente não se defrontavam, e Borgerth era um dos que remavam pelo rubro-negro e jogavam futebol pelo tricolor. Em 1927, ele chegaria à presidência rubro-negra.

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“Fluminense e Flamengo eram como irmãos. A vida de um, muitas vezes, se confundiu com a do outro”, escreveu Edilberto Coutinho em seu livro “Nação Rubro-Negra”.

O movimento de saída dos jogadores tricolores começara em setembro de 1911, com o campeonato em andamento.  Deixar o tricolor era ponto pacífico. A dúvida era o que fazer. Uma idéia seria reativar o Rio Football Club, fundado em julho de 1902, dias antes do Fluminense, mas que estava desativado. Outra era a de criar, no Rio, o São Paulo Football Club, já que alguns deles eram paulistas. Foi quando Borgerth deu a sugestão, aceita por aclamação, de que todos fossem para o Flamengo. Em novembro, quando o Fluminense ganhou o campeonato, o grupo não foi à festa de confraternização. Era a rebelião manifesta.

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Os remadores fizeram questão de que o futebol usasse uniformes diferentes dos do remo, que já eram listrados como agora. Ao futebol, coube usar uma camisa quadriculada, em vermelho e preto, que ficou conhecida como Papagaio de Vintém.

Depois de aguardarem algumas semanas, os rubro-negros conseguiram se filiar à Liga Metropolitana de Sports Athléticos (LMSA). Na primeira partida oficial, o novo time, que era a maioria do elenco campeão de 1911 pelo Fluminense, arrasou o Mangueira por 16 a 2, em maio de 1912, no campo do América.

Uma dificuldade enfrentada pelos novos rubro-negros pode ter sido um dos fatores que explicam a enorme popularidade do clube. Sem campo para treinar, os jogadores trocavam de roupa na garagem dos remadores, no número 22 da Praia do Flamengo, e iam caminhando até a Praia do Russell, para treinar. O time treinava em campo aberto, cercado de crianças e de curiosos (…)

Adaptação do livro “Futebol Brasil Memoria”, de 2006

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Adversários desde aquele longínquo 1912, Fluminense e Flamengo já disputaram 407 confrontos, recorde entre os clássicos cariocas, com 146 triunfos rubro-negros, 129 tricolores e 132 empates. No Estadual de 2017, foram duas igualdades, em 3 a 3, na decisão da Taça Guanabara, no Engenhão (o Fluminense levou o troféu nos pênaltis) e  em 1 a 1, no segundo turno, em Cariacica (ES). Os dois duelos válidos pelas finais do campeonato serão no Maracanã.

Em Estaduais, foram registradas 11 finais. O Fluminense tem boa vantagem (8 a 3), graças às conquistas de 1919, 1936, 1941 (Fla-Flu da Lagoa, no qual, para assegurar o empate que lhe dava o troféu, a defesa tricolor jogava a bola para longe, nas águas da Lagoa Rodrigo de Freitas, junto ao estádio do rival, na Gávea), 1969, 1973, 1983 (triangular final – no vídeo acima), 1984 e 1995. Já o Flamengo foi campeão contra o adversário em 1963, 1972 e 1991 (vídeo abaixo).

Em finais de Taça Guanabara entre os dois, o rubro-negro foi vitorioso em 1970, 1972, 1978, 1984, 2001 e 2004; e o Fluminense, em 1966, 1991 e 2017. Na Taça Rio, o Flamengo foi vencedor em  1986, e o Fluminense, em 2005.

Ao todo, o clube da Gávea tem 33 campeonatos estaduais e 31 vice-campeonatos, ao passo que o das Laranjeiras soma 31 troféus e 21 segundos lugares. O Vasco foi campeão estadual 24 vezes e vice-campeão 24 vezes, e o Botafogo ganhou 20 títulos e outros 20 vice-campeonatos.

Os títulos cariocas do rubro-negro foram: 1914, 1915, 1920, 1921, 1925, 1927, 1939, 1942, 1943, 1944, 1953, 1954, 1955, 1963, 1965, 1972, 1974, 1978, 1979-Especial, 1979, 1981, 1986, 1991, 1996, 1999, 2000, 2001, 2004, 2007, 2008, 2009, 2011 e 2014.
 
Já os do tricolor foram os de 1906, 1907 (dividido com o Botafogo), 1908, 1909, 1911, 1917, 1918, 1919, 1924, 1936, 1937, 1938, 1940, 1941, 1946, 1951, 1959, 1964, 1969, 1971, 1973, 1975, 1976, 1980, 1983, 1984, 1985, 1995, 2002, 2005 e 2012.

Invicto no atual campeonato, o Flamengo poderá chegar à sua sexta conquista estadual do gênero, como ocorreu em 1915, 1920, 1979, 1996 e 2011, igualando o recorde do Vasco. Já o Fluminense foi campeão carioca sem derrota em 1908, 1909 e 1911.

* Cláudio Nogueira é jornalista do SporTV e autor dos livros “Futebol Brasil Memória – De Oscar Cox a Leônidas da Silva”, “Os dez mais do Vasco da Gama” e “Vamos todos cantar de coração: os 100 anos do futebol no Vasco da Gama” (e-book)

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