Afinal, onde nasceu Adolpho Milman, o Russo, ídolo do Fluminense?


Russo, craque tricolor.
Esta semana, quando o nome de Andreas Pereira, nascido na Bélgica, apareceu na lista de convocados de Tite, alguns portais noticiaram que ele seria o quinto atleta nascido no exterior a defender a Seleção Brasileira (exemplo aqui).

Três “gringos” defenderam a Seleção nos seus primórdios, entre 1914 e 1918: Sidney Pullen (nascido na Inglaterra), Casemiro do Amaral (nascido em Portugal) e Francesco Police (nascido na Itália). O quarto “estrangeiro” da Seleção teria sido Adolpho Milman, o Russo, ídolo do Fluminense nas décadas de 1930 e 1940, que atuou em uma partida do Sul-Americano de 1942 (atual Copa América).

Adolpho Milman nasceu no dia 26 de julho de 1915, filho de Salomão e Clara, um casal de ucranianos. Diversas fontes indicam como local de seu nascimento uma província do antigo Império Russo, hoje território do Afeganistão. A família teria vindo para o Brasil quando ele ainda era um bebê, estabelecendo-se no Rio Grande do Sul. Eu mesmo, quando publiquei minha lista de estrangeiros do Fluminense, repercuti esta informação, cuja origem não consegui determinar.
No entanto, há algum tempo, resolvi retirá-lo das minhas listas de estrangeiros, após encontrar algumas evidências de que a mudança da família Milman para cá fora anterior ao nascimento de Russo. Por exemplo, os jornais da época em que Russo atuou frequentemente se referiam a ele como gaúcho.

O Radical, 13 de fevereiro de 1938: “O player gaúcho Adolpho Milman…”.

O perfil do craque publicado em 1942 por O Globo Sportivo, copiado abaixo, diz que Russo nasceu já em Pelotas, cidade gaúcha onde passou sua infância.

O Globo Sportivo, 27 de março de 1942: “Adolfo Milman nasceu em Pelotas”.
Em 1982, dois anos após a morte de Russo, a revista Placar elegeu uma seleção histórica do Fluminense, e ele foi um dos onze escolhidos. Na mini-biografia do craque, recortada abaixo, a Placar também coloca Pelotas como seu local de nascimento.
Revista Placar, 8 de outubro de 1982: “Pelotas, RS”.

Ontem, porém, topei com um interessante texto do escritor Lourenço Cazarré, que dá muitos detalhes sobre a saga de Russo e sua família, e afirma que ele nasceu, sim, no exterior, mas bem mais perto daqui. Citando Jane Gershenson, sobrinha do craque, Lourenço diz: “Salomão e Clara casaram-se em Buenos Aires, mas logo partiram para viver na província [argentina] de Entre Ríos. Lá vieram à luz seus três primeiros filhos: Joana, Adolfo e Bertha. Tempos depois, se transferiram para Pelotas, onde nasceram os outros cinco: Moisés, Isaac, Milton, Rosa e Ada. Então, de acordo com sua sobrinha, Russo teria nascido na Argentina, na província de Entre Ríos, próxima ao Uruguai e ao Rio Grande do Sul. Nesta província, há uma “Plaza Milman”, praça situada no pequeno município de Ubajay – seria uma homenagem à família?

Mapa da Argentina com a província de Entre Ríos destacada.

Pedro Amorim, Romeu Pellicciari, Russo e Tim: quatro lendas tricolores.

Russo estreou pelo Fluminense em 1933, e formou linhas de ataque lendárias, ao lado de Pedro Amorim, Carreiro, SobralRongo, Romeu Pellicciari, Tim e Hércules. Dono de um chute muito forte, ele marcou 149 gols em 248 partidas pelo Fluminense, entre as temporadas de 1933 e 1944. Participou das conquistas dos Campeonatos de 1936, 1937, 1940 e 1941, além do Torneio Aberto de 1935 e do Torneio Extra de 1941. Russo não jogou pelo Tricolor entre 1938 e 1939, pois mudou-se para a França, para se tratar de uma contusão séria (lá, atuou pelo Cercle Athlétique de Paris). Russo é especialmente lembrado por duas atuações espetaculares: em 1941, anotou cinco gols contra o Bangu; em 1943, fez três contra o Botafogo. Após encerrar a carreira, voltou a trabalhar no Fluminense, como treinador de times juvenis e assessor de futebol. Trabalhou também no America e na Seleção Brasileira, tendo participado da preparação para a Copa do Mundo de 1970. Faleceu no dia 22 de fevereiro de 1980, no Rio de Janeiro, vítima de um câncer causado pelo hábito de fumar (em seu obituário no Jornal do Brasil, Sandro Moreyra escreveu que ele era gaúcho, de Pelotas).

Russo e João Saldanha, em jogo da Seleção no Maracanã, em 1969 (foto: Agência O Globo).

Russo, ucraniano, afegão, argentino ou brasileiro? Eu diria russo pelo apelido, ucraniano pela ancestralidade, afegão por boato, argentino pelo local de nascimento e brasileiro pelo local de criação. Mas pouco importa: Adolpho Milman era mesmo um tricolor de coração…
PCFilho

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