Bonitinho mas ordinário – Parte 3: Se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava


Essa parte talvez seja a mais chocante de todas.
Em determinado momento de 2018, nosso agora ex-Vice-Presidente de Finanças disponibilizou para conselheiros, um relatório analítico contábil do exercício de 2017 até o mês de novembro.
Notem que as peças contábeis do Fluminense são públicas, e, portanto, os relatórios que servem de base para sua elaboração deveriam ser franqueados a todos, como acabou ocorrendo. Não há vazamento quando a informação é cedida voluntariamente por um Vice-Presidente. Tampouco há quebra de sigilo, afinal é necessário prestar contas e dar o maior nível de detalhamento possível. Se a informação contábil circulou entre os diversos grupos de sócios e torcedores e chegou até mim, culpem quem as forneceu originalmente, mas lembrando que isso não deveria, jamais, ser um segredo.
Com base em alguns saldos interinos de novembro de 2017, tenho algumas perguntas a fazer. Apertem os cintos!
CENTRO DE CUSTO DE DESPESAS COM SERVIÇOS
Vamos começar com a conta de intermediação: ela foi o ponto de partida para a análise dessa parte 3.
CONTA 4110105007 – Intermediação
Em novembro de 2017, essa conta de despesa já acumulava o saldo de R$ 9.458.675,81. Ela se refere a tudo que é pago no ano a intermediários nas transações com jogadores (vendas e empréstimos).
Na nota explicativa 19 temos o seguinte quadro:
(Clique na imagem para ler melhor.)
Há uma diferença com o saldo interino de novembro de quase 7 milhões de reais. Onde foram parar esses valores entre novembro e dezembro de 2018?
Para que não haja dúvida, citarei por exemplo a conta 4110105004, referente a honorários de advogados, que em novembro tinha como saldo R$ 2.160.899,07 e que em dezembro fechou com um ligeiro aumento de cerca de meio milhão, como podemos ver na mesma nota. Um comportamento esperado em termos de evolução de saldo (mas não na natureza do gasto, um absurdo gastar isso tudo com advogados, mas tem Operação Limpidus, burla de penhora, etc, isso custa caro mesmo).
O mistério não acaba por aí. Em novembro de 2017 o grupo 4110105 DESPESAS COM SERVIÇOS já tinha um saldo acumulado de 33 milhões. O total da nota em dezembro acumula 20 milhões. O que aconteceu com esses 13 milhões? Foram reclassificados? Para onde e por quê? Ou tivemos reversões? Nesse caso, qual o motivo?
EVOLUÇÃO DAS PROVISÕES COM IMPOSTOS
Há um ponto alarmante no relatório de novembro, nas contas de provisões de impostos.
O comportamento normal dessas contas é que haja o provisionamento, com pagamento subsequente e baixa do valor provisionado. Dessa forma, o saldo das contas de passivo tende a ser quase constante, contemplando somente o que é devido até o recolhimento mensal.
Acontece que várias contas têm crescido de saldo a cada mês, com eventuais baixas parciais.
Listo todas onde foi identificado crescimento do saldo devedor (isto é, inadimplência total ou parcial) para vocês: PIS, INSS, FGTS, PIS/CSSL/COFINS sobre serviços de terceiros, INSS sobre terceiros (2 contas no razão analítico), IRRF sobre serviços de terceiros, ISS PJs, ISS sobre serviços de terceiros, COFINS e IRRF FUNCIONÁRIOS.
Aqui cabe uma única pergunta: onde estão as guias que provam que os impostos foram recolhidos? Existem rubricas que não são cobertas pelo PROFUT.
E não custa relembrar que cerca de algumas semanas atrás existia denúncia na timeline do Twitter, originada de grupos do Whatsapp, acerca de problemas de apropriação indébita de IRRF. Uma cagada de quase 17 milhões com efeitos catastróficos.
Não preciso me estender sobre a gravidade disso, muito menos lembrar que uma cagada dessa proporção deveria ser tratada pelo auditor independente de forma adequada. Ainda mais com o tal plano de reestruturação divulgado no início do relatório publicado.
Vamos rezar para que o Fluminense me prove que estou fazendo uma leitura errada dos números. Mas sem narrativas: mostrem as guias com o comprovante de pagamento.
Até a próxima postagem.
STs
#beijundas
#bonitinhomasordinario
#illbeback
Ricco

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