Clubes brasileiros veem prejuízo e criticam imbróglio da Fox Sports


Diego Garcia

A falta de alcance da transmissão da Copa Libertadores 2012 já provoca reclamações dos clubes brasileiros. Incomodadas com o impasse na negociação de ingresso da Fox Sports – detentora exclusiva dos direitos – na grade de duas grandes operadoras de televisão fechadas, as equipes reclamam de prejuízo e perdas de imagem com a ausência de público em jogos televisionados.

O imbróglio envolvendo a Fox Sports começou antes mesmo do lançamento oficial da emissora, que aconteceu no mês de janeiro. Até 2011, a empresa, comandada por Rupert Murdoch, repassava os direitos da Libertadores e da Copa Sul-Americana ao Sportv e BandSports, que transmitiam quase 100% das partidas nos dois torneios. A partir desta temporada, porém, o canal decidiu manter os direitos exclusivos, para conquistar o mercado brasileiro – considerado por especialistas um dos mais promissores depois do mercado norte-americano.

Nos bastidores, é dito que após a Fox Sports adotar esta postura, as principais empresas de TV a cabo do País teriam sido pressionadas a não fechar contrato para incluir o novo canal em sua grade. Por enquanto, a Fox fechou acordos com Telefônica TV Digital, TVA, Nossa TV, Oi TV, CTBC TV, TVN, TV Alphaville, RCA e BVCI, restando apenas Sky, Net e Via Embratel – justamente donas de mais de 80% do mercado – para acertarem acordos com a emissora.

Em contato com o Terra, tanto o grupo Fox quanto as operadoras disseram que não há uma previsão para que as diferenças sejam sanadas e o acordo para ingresso nas grades seja selado.

Na fase de grupos do torneio, o Grupo Fox só irá deslocar partidas para a grade de transmissão de seus outros canais – como o FX e o Speed Channel – em casos excepcionais. Com isso, apenas a TV Globo aparece como opção para quem não assina operadoras que tenham fechado com a Fox Sports, já que o canal de TV aberta tem direito de transmitir só jogos de quarta-feira, às 21h50 (de Brasília).

O Terra conversou com as diretorias de marketing de cinco dos seis times do Brasil na competição – apenas o Corinthians não atendeu às ligações. Tanto Santos, quanto Fluminense, Vasco, Flamengo e Internacional veem a demora com insatisfação, falam em desrespeito ao torcedor e até em atitude “antiquada”. A falta de opções para assistir ao torneio também gerou revolta por parte de torcedores nas redes sociais.

Confira, abaixo, palavras dos clubes brasileiros a respeito do fato:

Santos – Armênio Neto, diretor de marketing: “Isso é um contrassenso total, pois a gente está em plena época da televisão digital e o torcedor não pode acompanhar a partida do seu time de futebol pela TV, e ainda da principal competição do continente na atualidade. Isso prejudica todo mundo e é muito desagradável às partes envolvidas. Não participo das negociações e nem o Santos, mas espero que isso se resolva amanhã, o quanto antes. Sei que é uma briga que envolve diversas coisas, mas não podemos ficar sem as transmissões das partidas dos clubes brasileiros”.

Internacional – Jorge Avancini, vice-presidente de marketing: “Atrapalha e muito isso tudo, porque na verdade prejudica torcedores do mundo inteiro de assistir às partidas de seu clube de coração. Existe prejuízo com a marca no exterior, no Brasil e também da marca como um todo. Todo mundo perde com isso e muito, não dá para calcular quanto representam essas perdas. Perde em exposição da marca, em grau de satisfação, gera desconforto do torcedor em não poder acompanhar seu time do coração… As despesas não são mensuráveis, não consegue expor seu time no exterior. Se não conseguir o acordo logo vai ser frustrante. Os responsáveis têm que tentar buscar uma saída para isso, para que não prejudique mais os torcedores. As perdas são imensuráveis”.

Flamengo – Henrique Brandão, vice-presidente de marketing: “Isso é prejudicial para o Flamengo pelo fato de ser a maior torcida do Brasil. Sempre que a gente puder ter acesso aos jogos é benéfico nesse sentido, como nesse sentido também é prejudicial por termos a maior torcida. Não é financeiramente, é indiretamente. O fato de você restringir o acesso é ruim. O Flamengo está de mãos atadas. Temos recebido mensagens reclamando nas redes sociais, parte dos torcedores reclamando. Seria bom que isso se resolvesse logo, o quanto antes. Espero que a Fox chegue a um acordo com as operadoras, pois isso seria bom para ela. Tudo isso é um problema comercial. Para o Flamengo evidentemente é um problema até por conta dos números gigantescos da nossa torcida. É bom ter os jogos transmitidos, pois além da exposição de marketing fazemos com que o maior número possível de torcedores acompanhe”.

Fluminense – Idel Halfen, vice-presidente de marketing: “Prejudica bastante essa indefinição, mas agora o clube não tem gerência nenhuma nisso. É uma negociação que tem que ser feita pelas operadoras e o canal, mas o clube é prejudicado, os torcedores são prejudicados, todos os lados são prejudicados. Mesmo assim, não existe pressão por parte do Fluminense que isso se defina. Só que atrapalha bastante, pois o torcedor não consegue acompanhar o clube, atrapalha o patrocinador que quer ter a imagem exposta e até financeiramente de forma indireta, pois os torcedores perdem interesse naquele campeonato, perdem interesse no time, há a possibilidade de acompanhar a equipe ainda menos. Por tudo isso, a minha expectativa era de que tivesse se resolvido antes do começo do campeonato, não para ter que começar e, no meio dele, ainda não termos a transmissão”.

Vasco da Gama – Fábio Fernandes, vice-presidente de marketing: “É prejudicial sob todos os pontos de vista: desde o da insuficiente divulgação dos jogos e a consequente diminuição de visibilidade dos nossos patrocinadores atuais e potenciais, até evidentemente o afastamento forçoso do nosso torcedor, no momento em que mais precisamos e contamos com ele. É claro que a Libertadores segue sendo um campeonato extremamente importante e é por isso mesmo que o torcedor do Vasco não se conforma em se ver impedido de participar de uma boa parte das emoções que uma competição como esta desperta: o jogo propriamente dito. Os reflexos disso ainda são imprevisíveis, mas podem se dar de diferentes formas. O pior deles, para a própria competição, seria a perda gradativa de interesse do grande público e, consequentemente, dos anunciantes. Acho que nesta fase perdem muito mais os torcedores apaixonados, aqueles que não gostam de perder sequer um minuto de um jogo importante; aqueles que compram desde ingressos até transmissões pay-per-view, passando por produtos, inclusive promocionais, licenciados pelo clube”.

“A permanecer o inexplicável impasse e, mais adiante, afunilando-se a competição com jogos de ida e volta nos chamados ‘mata-mata’, aí sim poderemos começar a perder potenciais receitas publicitárias, advindas daqueles anunciantes que buscam exatamente a alta visibilidade que jogos com este apelo trariam normalmente. E sim: é o que todos esperamos (que se resolva antes do fim da primeira fase). Na realidade, no momento em que se reclama tanto uma maior profissionalização do nosso futebol, soa no mínimo antiquado, para não dizer amador, termos que lidar com este tipo de situação. Isso é que é inesperado a esta altura do campeonato, perdoando o trocadilho”.

O Corinthians foi o único clube dos seis brasileiros na Libertadores que não deu retorno às ligações da reportagem.

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